RTP 2
Sou um dos espécimes raros que ainda não tem TV cabo (sei que existe, só não sei se me interessa). De facto, dos quatro canais que tenho, só mesmo a Rtp 2 me desperta algum interesse. Só aquí consigo escapar da tortura das telenovelas, futebol, concursos e noticiários com opiniões de qualquer bípede que se encontra perto da equipa do exterior na altura da gravação. Os debates são suficientemente interessantes, as séries não são intragáveis, o telejornal limita-se às notícias e os documentários, se bem que por vezes desactualizados e repetidos,têm qualidade. Por isso mesmo chocam-me as más traduções.
As más traduções não são novidade. O que é de lamentar é quando adulteram o sentido original, vedando ao espectador que não domina ideomas a possibilidade de se entreter a aprender. Desconfio que o mesmo acontece quando a locução é feita em português, pois várias vezes surgem afirmações que não fazem sentido. Dois exemplos dos muitos que são o prato do dia:
num documentário sobre babuinos, “Growing up Baboon”, é referido a dificuldade de lutar pela conservação destes animais visto os habitantes locais os considerarem vermes. O espectador que não domina o inglês poderá tirar daquí a conclusão que os habitantes locais são no mínimo deficientes mentais, visto não conseguirem distinguir um mamífero dum invertebrado. Também pode concluir que os habitantes locais desprezam os babuinos, se quisermos interpretar isto no sentido figurado, e nem quero imaginar o porquê. O que de facto é dito no original, é que os habitantes locais os consideram uma praga. Por azar praga, em inglês, é “vermin”, coisa que o bom do trdutor tem o direito de não saber, mas não tem o direito de ser tão def que não note que não faz sentido nenhum no contexto, e pegar no dicionário, se não for exigir muito.
noutro documentário cujo início não ví, mas que contava a aventura de um miúdo tibetano de 8 ou 9 anos que, sendo pobre, optara por se tornar monje e empreendera a viagem até ao mosteiro a pé, acompanhado por um primo mais velho que queria encontrar uma mulher para casar. Durante toda a viagem o miúdo pede ao primo que lhe compre uma bola de baseball. Tanto insiste que o primo acaba por ceder. Feliz, o rapaz agora pede-lhe um morcego, e depois temos uma conversa do estilo:
rapaz-Compra-me um morcego
primo-para quê?
r - para jogar à bola
p - mas os morcegos são muito caros
r - vá-lá
p - mas o que vais fazer no mosteiro com um morcego ?
e assim por diante. Parece um diálogo surrealista, mas não. O tradutor, que se calhar até abriu o dicionário, viu que “bat” significava morcego e pronto, continuou o seu trabalho sem notar sequer o disparate que estava a escrever. Talvez nunca lhe tenham explicado que quando se abre um dicionário, não é logo a primeira palavra que serve, mas sim a que se adequa ao contexto. “bat”, obviamente, também significa taco de baseball.
Por uma questão de não bater mais no céguinho, talvez a culpa não seja do tradutor, mas sim do revisor. Tenho uma irmã que ocasionalmente traduz documentários e ela disse-me que muita tradução de qualidade é estragada pelos revisores, ao ponto dela se recusar a assinar traduções revistas por estes tipos. Pergunto : então os revisores ainda sabem menos que os tradutores? Será que quem os contrata os vai buscar dos transportes públicos?
Voltando à vaca fria: por favor, não dêm cabo do único canal que ainda se consegue tragar e tentem manter um mínimo de qualidade, mesmo que tenham de pagar mais uns euros a alguém que saiba inglês.
KK